O 12º Encontro: Viver sua música

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Viver sua música… De quantas maneiras é possível? Talvez uma das experiências mais antigas seja a do acalanto, seguida das cantigas rimadas, das danças de roda. Na primeira infância, pela transmissão oral… Depois surgiria a prática instrumental, a escuta mais ou menos atenta, de acordo com o repertório e seus rituais de fruição.

Assim deve ter sido a vivência musical, até pouco mais de há cem anos. Mais propriamente falando, até o final do século XIX, com o advento daesquizofonia tecnológica. Transformações drásticas foram surgindo no modo de vida das pessoas, em poucos anos – fato inédito ao longo de mais de dois milênios. Com a invenção de recursos de captação, transmissão, amplificação, armazenamento das informações acústicas surgiram os aparelhos de gravação e, logo em seguida, de transmissão, possibilitando a criação e desenvolvimento daquilo que se convencionou denominar indústria cultural. Este novo panorama, atingiu vários setores da sociedade, abrindo novos horizontes em várias instâncias no âmbito econômico, cultural, artístico. Objetivamente, estreitaram-se as relações entre os campos de estudo da sonologia e a performance musical.

A mediatização técnica aos poucos promoveu, inicialmente, a escuta em local fixo – a sala residencial, a sala de concertos. Mais tarde, a escuta ambulante, com fones de ouvido de grife ou descartáveis, comprados de vendedores ambulantes a preços módicos. A era digital promoveu a interação do estímulo visual, em paralelo ao sonoro (e, em várias situações, o estímulo visual, antes coadjuvante, tornou-se a orientação da atitude da escuta…)

Viver a música implica, frequentemente, o uso de acessórios materiais que, na falta de outro nome, podemos chamar de instrumento musical. Dentre uma miríade de exemplos, podem ser lembrados o piano, o tambor, o iPod, o toca-disco e o smartphone, dispositivos usados para a produção ou reprodução musical em ambientes e culturas os mais variados. Muitos desses aparelhos lembram a proximidade do conceito tecnologia, palavra utilizada para falar de novas propostas de performance e escuta – isto é, de vivência – da música. Ainda que existam até hoje aperfeiçoamento em materiais ditos “tradicionais”, como vernizes para violinos ou ligas metálicas para instrumentos de sopro, o que tem ganhado muita atenção é o uso da eletrônica em geral e suas aplicações digitais em particular. Porém, afirma-se, todos esses meios técnicos podem servir ao fim último do viver a música.

No que diz respeito à performance, verifica-se que, inicialmente a fonografia elegeu a voz como fonte privilegiada das primeiras gravações. Tal fato concorreu, ao mesmo tempo, para a criação do hábito de escuta da performancesem a presença direta do corpo e, mais ainda, distante dos espaços canônicos de sua realização. Por outro lado, permitiu a veiculação de modelos estéticos vocais filtrados e padronizados segundo critérios não apenas estéticos e técnicos, mas também mercadológicos. Como consequência imediata, a outras formas de escuta que decorrem de tal experiência são contundentes: escuta-se a voz a partir de um corpo imaginado. Não obstante, a voz realiza a performance, fundamentalmente, por intermédio de seus aspectos peculiares de capacidade de transmissão de suas emoções.

Vive-se a música de acordo com os estágios da vida: o bebê percebe de maneira diferente da criança, do adolescente, do adulto e do idoso. E também vivem a música, de maneira singular, as pessoas que, por razões diversas, fogem ao padrão: cegos, surdos, deficientes intelectuais, físicos e também pessoas que sofrem alterações de ordem psíquica. Tais receptores ouvem com o corpo em formas e protocolos distintos, reconfigurados e redesenhados continuamente.

Viver a música também é estudar o papel da música na sociedade, sua relação com outras artes, sua relação com as instituições, seu papel na construção de conhecimento, nas formas de agir no mundo, seu papel na vida das pessoas, bem como as suas formas de apropriação: questões de gênero, seu uso político, até como arma guerra (etc.)

Enfim, vivemos nossa música de várias maneiras e em diferentes graus de proximidade: da escuta atenta a qual dirigimos nossa atenção de maneira intensa, à mais despretensiosa, conjuntamente ao desempenho de múltiplas tarefas… E, embora não pareçam, todas elas constituem operações de alta complexidade intelectual, que acabam resultando em hábitos corriqueiros.

Este 12º Encontro dedica especialmente sua edição à memória do compositor Gilberto Mendes, incentivador desta reunião científica desde sua primeira edição, em 2005. Por isso, tomamos o título de seu segundo livro de memórias como motivação para os debates que se desenrolarão ao longo de três dias. Mas também, aproveitamos esta edição para evocar outros nomes que viveram sua música de maneira muito especial: nomes que deixaram de ser pessoas, para se transformarem signos… Poderosos signos representantes de sua época, de sua estética e de sua maneira de propor a escuta e fruição da música: Pierre Boulez, Keith Emerson, David Bowie, Prince, Severino Filho, Nicolaus Harnoncourt, Naná Vasconcelos, George Martin… Assim como não-músicos profissionais que viveram a música de outra forma, como Rogério Duarte e o teórico Umberto Eco. A organização do 12º Encontro convida os interessados a participarem das discussões, como ouvintes ou propondo comunicações, dentro dos eixos temáticos.