Apresentação

Ainda que não constitua uma linguagem universal, a música se encontra presente na imensa maioria das culturas. Trate-se da música composta para ser executada em situações rituais, trate-se da chamada música pura (ou absoluta), destinada à sala de concertos, a música demonstra ter sempre exercido papel importante nas diversas sociedades.

Há pouco mais de cem anos, desde o surgimento dos aparelhos que possibilitaram a captação, fixação, amplificação e transmissão do som à distância – particularmente, o disco e o rádio –, foi possível o armazenar o som no tempo e no espaço, gerando o que o compositor R. Murray Schafer definiu como esquizofonia. A mediatização técnica do som teve várias implicações importantes, como o advento das canções populares urbanas, bem como as linguagens de matriz sonora de natureza oral. Como parte integrante das linguagens audiovisuais, as formas de existência do som mediatizado tecnicamente só viriam a se ampliar: das trilhas musicais do cinema, aos games o espectro é amplo e, ao longo do tempo, gerou formas híbridas.

É importante enfatizar, ainda, que todo um século de música mediatizada gerou um repertório vastíssimo, possibilitando a criação de uma memória dos signos sonoros e musicais. Parte dele encontra-se esparso e outro segmento enclausurou-se em recônditos às vezes inatingíveis, como certas coleções particulares e acervos raros.

De outra parte, a fonofixação (gravação) no disco teve implicações de natureza econômica e social, ao potencializar o caráter comercial das obras musicais, sobretudo as canções. Ademais, criou e estabeleceu formas de comportamento de escuta. De poderoso pivô do centro de poder econômico até a derrocada do sistema, quase um século após o surgimento das majors, a música não se fixa mais sobre suportes materiais “palpáveis” e “visíveis”, ao adentrar o mundo telemático.

O século XXI irrompe com o crescimento das formas híbridas nas linguagens artísticas e formas expressivas cada vez mais complexas de pensamento, oriundas de uma cultura digital. No entanto, ao que parece, o legado do mundo da tecnologia analógica ainda não foi suficientemente assimilado teórica e culturalmente.

Estes temas aqui expostos apenas constituem um breve panorama que procura assinalar o surgimento de estudos consistentes e densos que venham a abordar as relações entre a teoria da mídia, a musicologia, em diálogo com diversas áreas do conhecimento.

Esta Revista, desdobramento necessário dos trabalhos do Centro de Estudos em Música e Mídia (MusiMid), foi criada com este objetivo central – bastante ambicioso, reconhecemos-, ao mesmo tempo que urgente.

Os textos aqui reunidos apresentam proposições originais, incentivando novos debates.

Boa leitura!