O sabor do saber… Se etimologicamente as duas palavras são sinônimas, no uso cotidiano esta afinidade parece ter-se perdido. A proposta deste ano pretende recuperar a experiência sensível e sensorial pela música, tendo, como aproximação, o próprio consumo: do material sólido (alimento) ou líquido (bebidas) ao sígnico (as criações, em várias instâncias). Enfim, o tema deste ano convida os interessados a ajudar a conhecer melhor como gostos e sabores conduzem a saberes particulares.

O 9º Encontro Internacional de Música e Mídia é uma iniciativa do Centro de Estudos em Música e Mídia – MusiMid. O Grupo de Pesquisa – registrado no Sistema
Grupos, do CNPq e vinculado ao Programa de Pós-graduação em Música do Departamento de Música da ECA/USP – é formado por profissionais do meio acadêmico e artístico de formação multidisciplinar, além de estudantes de graduação e pós-graduação. Provenientes das universidades mais conceituadas do país e do exterior, esses pesquisadores têm como centro de interesse comum o estudo das múltiplas relações entre música e suas formas de comunicação e recepção.

Visando ampliar os debates e estendê-los à comunidade interessada no tema, o grupo vem realizando anualmente os Encontros de Música e Mídia: As múltiplas vozes da cidade (2005); Verbalidades, musicalidades: temas, tramas e trânsitos (2006), As imagens da música (2007), O Brasil dos Gilbertos: Gilberto Freyre, João Gilberto, Gilberto Gil e Gilberto Mendes (2008), E(st)éticas do som (2009), Música: De/Para (2010), Música, memória: tramas em trânsito, (2011), Tão longe… Tão perto… A música nômade (2012) realizados no SESC-Santos e nos auditórios da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Em sua nona edição, o tema do encontro será O gosto da música dividido em quatro temas principais.

Neste ano de 2013, o evento tem como coordenadores externos os professores doutores Eduardo Paiva (Unicamp) e Magda D. Pucci (Mawaca). O evento conta com o apoio do Programa de Pós-Graduação em Música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (PPGMUS/ECA-USP) e do Programa de Mestrado em Políticas Públicas da Universidade de Mogi das Cruzes.

O local de realização será o auditório Lupe Cotrim, da ECA-USP, que oferecerá a infraestrutura logística e institucional. A programação está voltada ao público universitário e interessados em geral, oferecendo certificados, mediante inscrição e frequência nas atividades. Será entregue, aos inscritos, exemplar dos anais do congresso, contendo os trabalhos completos dos participantes que submeteram textos para apresentação. À medida do possível, as atividades principais contarão com transmissão pela IPTV.

Eixos temáticos

Música + comida + bebida = ritual

A música está invariavelmente presente nas culturas antigas e contemporâneas, em cerimônias laicas ou religiosas, bem como nos hábitos individuais. Presente na prática coletiva, em caráter informal (rodas de samba, saraus domésticos, blocos carnavalescos), bem como nas apresentações profissionais em locais públicos, a associação entre bebida e música é constante (couvert em casa de espetáculo)

Música + bebida = viagem ao inconsciente

O poder que a música detém de potencializar efeitos químicos, após a ingestão de alimentos e bebidas. As culturas do processo decorrentes (“sexo, drogas e rock-and-roll”, por exemplo). O apelo ao consumo simultâneo é ato contínuo. O rituais dionisíacos. Voracidade; overdose, abstinência. A noção de corpo perfeito, esguio e anoréxico, versus o underground.

Gêneros musicais + bebidas = criação de signos artísticos

A correspondência entre gêneros musicais e bebidas é notável: uísque, bossa nova, jazz; cerveja e pagode, champanhe e valsa… O vinho está estreitamente ligado a gêneros particulares de canção de caráter tradicional (fado, tango), figurando no próprio título, tema, enredo da obra, ou texto poético. No desfecho da ópera O morcego, o champanhe é o “culpado pelos mal-entendidos”. A música também acompanha a comida: um interlúdio é uma obra breve que acompanha a entrada de um prato, num banquete.

Música + bebida + imagem (visual) = compre-me!

Sobretudo na publicidade, obras musicais e jingles ultrapassam a finalidade de promover o produto. A maneira como obras já conhecidas são ressignificadas, transformadas em trilhas sonora, promove uma ressignificação, face à mudança de função e contexto inicial.

Música + Muzak = “alimento” do corpo

Consumo alimentar e música ambiente: espaços sonoros e sua adequação à “alimentação adequada”, no tempo certo, das “academias” de ginástica, sessões de yoga, spas, aos restaurantes de fast food etc.

Em seu décimo ano de atuação, em caráter oficial, o MusiMid convida os interessados a brindar a efeméride, enviando textos e audiovisuais.

Textos completos

Anais eletrônicos do 9º Encontro Internacional de Música e Mídia

ISBN 978-85-621959-30-1

Os textos abaixo estão organizados em ordem alfabética considerando o último sobrenome do primeiro autor.

Alguém colocou algo em meu drink. Análise semiótica de temas relacionados à ingestão de bebidas e de outras substâncias na obra dos Ramones 

Daniel Pala Abeche

O grupo musical Ramones, representante referencial e um dos fundadores/precursores do gênero punk rock, abordou amiúde temáticas relacionadas à subversão e desestruturação de modos e padrões socialmente convencionais, tendo como elemento lírico constante a alusão à ingestão de álcool e substâncias ilícitas. Essa temática, presente em letras de músicas como “Somebody put something in my drink” e “Now I wanna sniff some glue”, também permeia títulos e capas de álbuns como Acid eaters inclusive proliferando signos em materiais audiovisuais, como o videoclip de “I wanna be sedated”, em que o grupo protagoniza um verdadeiro ritual subversivo, como uma santa ceia às avessas. O presente trabalho tem como objetivo estudar os signos relacionados à ingestão de bebidas, drogas e alimentos na obra dos Ramones, em âmbito lírico, visual e audiovisual, e verificar a influência desses elementos na construção identitária do grupo, veiculada pelos media e também presente no imaginário de seu público. A metodologia inclui levantamento do arquivo midiático dos Ramones (letras de músicas, capas de álbuns, encartes e videografia), estudo detalhado da obra e posterior análise crítica embasada teoricamente por autores que abordam a análise de discurso, a semiótica da cultura, os estudos culturais e as teorias da comunicação.

A ‘áudio-imagem’ segundo J.E. Berendt

Luiza Spínola Amaral

Sua voz ficou conhecida na Alemanha bem antes que sua imagem pudesse ser reconhecida pelos ouvintes. Homem do rádio, Joachim-Ernst Berendt construiu uma carreira de sucesso na mídia, durante os quarenta anos em que trabalhou como diretor no departamento de jazz da emissora alemã, Südwestfunk. No início dos anos de 1980, no entanto, e depois de uma carreira notável como produtor e crítico de jazz, envereda por um novo caminho, inaugurado com a peça radiofônica ‘Nada Brahma – Die Welt ist Klang’, onde não mais a música, mas os sons se tornam alvo do seu interesse. Ainda assim, o conceito de som elaborado por Berendt não visava à ampliação da paleta sonora no espectro da tradição musical, mas sua ‘antropologização’. Nesse contexto, o autor propunha a desobstrução do sentido auditivo, de forma a pensar outro tipo de imagem, sem referência visual, como um contra fluxo diante da excessiva visibilidade das imagens, intensificada após o advento da televisão, e que gerou o que ele denominou, “hipertrofia dos olhos”. Suas reflexões acerca do ouvir, longe de parecer retrógradas, antecipavam a importância de pensar a dimensão humana e sensória como partes dos processos comunicacionais. Entendendo, então, que o estudo da Comunicação deve ser pensado além dos meios técnico, mas atento às modificações que tais meios proporcionam às relações sociais, pretendemos apresentar o conceito de áudio-imagem segundo Joachim- Ernst Berendt, como forma para se pensar uma estética “pós-midiática” da imagem – tal qual apresentava Dietmar Kamper – onde a imaginação é parte fundamental dentro deste processo

O triângulo e o biscoito fino para as massas: reverberações culturais de uma prática ambulante

Thaís Amorim Aragão

O som do triângulo e o sabor do chegadinho são frequentemente associados por habitantes de Fortaleza a uma memória de infância, que também pode ser acionada ao mero presenciar do evento sonoro que é a passagem do vendedor desse biscoito pelas ruas da cidade. Neste trabalho serão apresentados dados que emergiram do contato com um grupo de vendedores, sobre a forma como eles articulam o som para se comunicar com a população em seus percursos, além de como conseguem seus instrumentos e como percebem sua própria relação com o tocar – e também com o cozinhar, pois muitos fazem os biscoitos que vendem. Desenvolvida em nível de mestrado no Programa de Pós-graduação em Plenejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PROPUR-UFRGS), a pesquisa traz um panorama sobre a combinação desse alimento e desse instrumento de percussão em uma prática que persiste em várias cidades do país, da América hispanofalante e da Península Ibérica, além de sua profunda influência na música popular brasileira, notadamente a nordestina.

Retrato de Cora: do natural ao artístico

Silvia Maria Pires Cabrera Berg

Retrato de Cora para piano solo é a II obra da Série Memórias de um Mundo Antigo (Silvia Berg 2004), encomendada pela pianista Valéria Zanini em 2004, e que teve sua primeira audição em Copenhagen no mesmo ano. A obra, composta a partir de um retrato de Cora Coralina (que se definia primeiramente quituteira e cozinheira e depois poetiza), remete a uma correlação estendida do cru e o cozido Lévi-straussiano na medida em que são analisados os processos composicionais do natural (material composicional) ao artístico (a superação do material e suas sistematizações). Na análise dos processos composicionais de Retrato de Cora são tomados como referência “O Princípio Cinematográfico”, de 1929, do diretor russo Serguei Eisenstein, que evidencia a correlação entre o principio de montagem ideográfica e o principio de montagem cinematográfica principalmente no tocante à decomposição “natural” em desproporcionalidades para efeitos de expressividade, tal como a fragmentação cronológica dos acontecimentos no eixo do tempo ou do espaço em planos ou retardamento de ações e movimentos, resultante da oposição de dois elementos.

Música – sabor na língua e carícia na pele

Déa E. Berttran

A ritualização nas repúblicas federais de Ouro Preto– MG: dos hinos às “rezas de cachaça” e suas implicações

Leonardo Corrêa Bomfim

A histórica cidade de Ouro Preto – MG há anos vem acolhendo novos habitantes em virtude da Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP, sendo este crescente número de estudantes responsável por algumas transformações de elementos e práticas do município. Em Ouro Preto existem 68 Repúblicas Federais, sendo grande parte destas, antigos casarões transformados em moradias estudantis, cedidos pela universidade, e que possuem um regimento próprio. A “reza de cachaça” é uma prática apropriada pelos estudantes das Repúblicas Federais de Ouro Preto, que consiste em declamar versos rimados antes da ingestão da bebida. Tal atividade pode ser considerada uma espécie de loa, possuindo, normalmente, uma conotação cômica e lúdica, abordando desde estruturas temáticas religiosas, à exaltação das próprias repúblicas, da sexualidade, e do excesso no consumo alcoólico. Assim como ocorre nas “rezas”, a maioria das repúblicas também possui hinos, sendo estes, habitualmente, apropriações de canções da cultura popular, com ou sem modificações da letra, que exaltam os mesmos temas. Estas atividades, normalmente realizadas em festas nas próprias repúblicas, refletem diversos aspectos da cultura jovem e estudantil ouro-pretana, que, ao transitar entre elementos como tradição e modernidade, hierarquia e a noção de communitas, revela características que se relacionam à tradição oral, ritual, identidade e pertencimento. Desta forma, através de observações etnográficas realizadas entre 2007 e 2010, discutimos neste artigo questões associadas aos conceitos elencados, através de autores como Turner (1974), Hall (2000; 2003), Geertz (1989), entre outros, afirmando esta prática como um resgate e mantenimento da cultura oral popular mineira.

Festa do Divino em Mogi das Cruzes: o percurso da Fé e a conquista do alimento santificado

Luci Bonini
Eliana Meneses de Melo

Com olhar voltado às manifestações culturais populares, o estudo avalia o percurso do sagrado em território urbano onde a tradição recorta caminhos possíveis entre as novas edificações, alterando o cotidiano da cidade, as antigas canções constroem diálogos com o presente em cerimoniais de Fé no Divino Espírito Santo. Contemplando as representações simbólicas, analisam-se as etapas que formam o percurso semiótico que tem início com a evocação da Santidade, a personificação da Fé no sujeito participante e a trajetória ritualística, que comina na saciedade do corpo pelo alimento. A novena ao Divino Espírito Santo caminha pelas ruas desde as cinco da manhã até às seis, quando então, os devotos se alinham em fila diante do salão paroquial para o café, alimentando o corpo depois de ter alimentado a alma rezando e cantando a Coroa do Divino. Revestido pelo sagrado, o sentido do gosto expressa a fechamento da manifestação e situa o sujeito participando no nível de servidor da fé, que, após o justo trabalho, é merecedor do sagrado alimento. O que se observou foi que embora os componentes da festividade façam parte da tradição do evento, o alimento servido dialoga diretamente com o contemporâneo. Neste sentido o gosto adicional está contido na crença no sagrado e nos ritos. Por fim, o estudo de natureza interdisciplinar foi realizado privilegiando a Semiótica. É o resultado desta leitura que se pretende apresentar.

Muito além do hit: considerações sobre a junk music

Alex Kantorowicz Buck

Acreditando na potência do encontro interdisciplinar, o presente trabalho problematiza a escuta musical no Brasil atual apoiando-se em duas pesquisas recentes que compartilham do mesmo objeto de estudo, a saber, os efeitos da alimentação de produtos industrializados e a consequente pandemia de obesidade. O documentário brasileiro ‘Muito Além do Peso’ e o livro ‘Salt, Fat, Sugar: How de Giants of Food Hooked Us’ tratam da impotência da sociedade – em escalas macro (políticas governamentais) e micro (orientação familiar) – no enfrentamento as ações das grandes corporações do segmento alimentício que manipulam as taxas de sal, açúcar e gordura dos alimentos (processo denominado ‘otimização’) como estratégia de sedução, captura e manutenção de consumidores. A questão principal deste trabalho se faz a partir da observação de que um hit musical é elaborado com a mesma finalidade com que são sintetizados os alimentos industrializados: existe uma intenção comercial evidente, a de se efetuar e “contaminar” o maior número de pessoas. Em música, o sal, a gordura e o açúcar parecem ser substituídos por padrões tonais simples, métricas binárias, pulsos regulares, discursos curtos, letras fáceis de se decorar e compreender. Encontrados os denominadores comuns entre a maioria da produção de músicas comerciais pode-se especular sobre os efeitos da presença hegemônica deste tipo de música nos meios de comunicação de massa no Brasil, além da possível existência de efeitos maléficos à saúde quando da exposição a estas músicas grudentas e descartáveis que cotidianamente são lançadas pelos diferentes tipos de mídia.

“Piquenique Classe C”: música, alimento, história, literatura e sociedade

Guilherme Gustavo Simões de Castro

“Piquenique Classe C” e “Nossa Cidade” são duas crônicas do jornalista e produtor Osvaldo Moles. Narram personagens e cenários na cidade de São Paulo entre os anos 1940 e 1950. Abordam de maneira espontânea aspectos sociais através das histórias de dois domingos, um trivial e outro diferente: a história de um convescote em Santos que fizeram os operários da Tecelagem da Virgem S/A, Rua Catumbi em São Paulo. As manifestações musicais e gastronômicas dos habitantes paulistanos aparecem nas narrativas. Numa interface entre História e Literatura quero relacionar o texto ficcional com o contexto histórico e material da expansão urbana da capital no período. Os costumes e experiências musicais e de hábitos de alimentação são de extrema relevância como dados para construção do conhecimento histórico de uma sociedade. A historiografia deve aproximar-se da música, da literatura e das mídias e buscar, em todos os tipos de linguagens, fontes e documentos, indícios de determinados contextos e experiências históricas da vida das pessoas e sua relação com o mundo.

Som, linguagem e significado musical

Paulo C. Chagas

Nesse artigo investigo a compreensão e o significado musical a partir de diferentes pontos de vista. Primeiramente, apresento uma reflexão sobre a simultaneidade e polifonia como qualidades inerentes do fato musical. Em seguida, abordo as seguintes questões: (1) a oposição entre o som musical e o ruído como base para a elaboração de estéticas musicais; (2) a analogia entre música e linguagem e as teorias de semiótica musical fundamentadas na linguística e no estruturalismo; (3) a analogia entre a música e o mito a partir de Lévi- Strauss e a sua crítica do serialismo e da música electroacústica; (4) a questão da autonomia musical e o debate sobre o distanciamento da música contemporânea em relação aos ouvintes; (5) o pensamento de Adorno sobre a verdade como ideal da arte e a questão da significação musical sob o ponto de vista da mimese. Finalmente, apresento a teoria do sphota, introduzida pelos gramáticos hindus, a qual propõe a ideia do som como origem de toda criação e a visão de que a linguagem e o significado formam uma totalidade invisível.

Celebrações e deleites de um outro tempo: o bem viver ao gosto dos harpistas do Egito Antigo

Cássio de A. Duarte

Incontestável ícone da mídia que foi impulsionado pelas grandes descobertas arqueológicas dos dois últimos séculos, o Egito antigo se sedimentou no imaginário popular como sendo uma terra exótica e mística; uma cultura icônica por seus monumentos de proporções divinas, por sua escrita misteriosa cercada por imagens animais e humanas singulares, e por suas práticas funerárias tão estranhas quanto fascinantes. Sob um olhar minucioso, entretanto, algumas destas visões se revelam como uma verdadeira miragem provocada pelos veículos de informação, os quais utilizam múmias, pirâmides e tumbas como elementos sedutores à mente Ocidental mas de maneira completamente empobrecida de significado. Mas as mesmas sepulturas e outras fontes milenares persistem em eternizar na rocha o clamor da riqueza humana ao transmitir uma realidade diversa: os egípcios antigos não ansiavam ou sequer eram obcecados pela ideia da morte; ao contrário, foram verdadeiros cultuadores da vida e das delícias do bem-viver, querendo que estas perdurassem para sempre no cenário da terra à qual estavam tão enraizados. Objetivamos com este trabalho o vislumbre de algumas fontes que enfocam o prazer da vida no Egito antigo e sua celebração por meio dos produtos da terra e das artes.

O significado musical: expectativas

Karin Segalla Ferreira

O objetivo do presente trabalho é apresentar um modelo de teoria para as expectativas e significado musicais, através de pesquisas já realizadas que perpassam desde o entendimento de como a música se torna significativa, do conceito de tendência, e da musicologia cognitiva. O pioneiro trabalho de Leonard Meyer (1956) será apresentado em nosso capítulo primeiro, trazendo a discussão entre as perspectivas formalista e referencialista do significado musical e um posicionamento mais emocional das expectativas. A teoria de David Huron (2006), autor que estudaremos em nosso capítulo segundo, é entendida como uma proposta derivada da teoria de Meyer, complementar e ao nosso ver, mais madura e atual, pois o autor foca-se nos aspectos neurológicos e fisiológicos para explicar o fenômeno da antecipação musical. Em nosso capítulo terceiro, apresentaremos a Teoria da Relevância proposta por Sperber & Wilson (2005) e relacionaremos o conceito de comunicação ao efeito cognitivo. O encerramento desse trabalho nos leva ao possível diálogo existente entre a TR e as expectativas musicais. Sendo assim, a TR pode ser um caminho possível para explicar a questão que nos norteia: “música comunica(?)”. Dessa forma, buscamos através desse trabalho expor teorias e introduzir uma possibilidade para explicá-las. Nossa intenção foi trazer um novo modelo para discussão que pode ser um caminho para formulação de uma nova hipótese no escopo teórico escolhido, sendo essa discussão para nós necessária e plausível a partir das formulações teóricas previamente estudadas. Músicas comunicam, e são manifestações sonoras comunicativas dos seres humanos. A abordagem teórico-relevante é um caminho para que essa conclusão seja efetiva. Ela é uma interface entre a razão e a emoção e uma potencial saída teórica para as questões abordadas.

O samba e a culinária mineira: análise etnográfica de um samba de Toninho Geraes e Paulinho Rezende

Ana Lúcia Fontenele

O presente artigo foi motivado por um samba “Comida Mineira” de autoria de Toninho Geraes e do letrista Paulinho Rezende. Aproveitamos a temática para situarmos alguns pontos da prática dos sambas de mesa no Rio de Janeiro. Os compositores traduziram em melodia e letra a saudade da cozinha mineira, associando as delícias salgadas e doces aos prazeres que a mineira, amada e cozinheira, os proporciona. Interessante observar que em boa parte dos sambas que associam a festa com a culinária a figura feminina aparece como a boa cozinheira, que além do banquete ainda faz a feira. No samba Comida Mineira o compositor, letrista, livra a cozinheira dessa parte da tarefa e ainda incrementa uma bela fogueira! A bebida é outro componente imprescindível no mundo do samba. Ela, a loira gelada, rola solta em volta da mesa do samba e irriga as gargantas dos cantantes e dançantes. O samba “Comida Mineira” resolve problemas, como em geral os sambas o fazem. Uma paixão declinada, uma dívida, uma ou várias saudades. Nesse banquete mineiro desfilam o tutu, o cheiro verde, a vaca atolada, a pimenta, a mandioca, a polenta, o angu, a carne seca, o iô iô, o iá iá e tudo o que mais rolar.

O “culinário” em Adorno, Benjamin e Brecht: entre o prazer e a regressão

Luiz Fernando de Prince Fukushiro

Em alemão, o adjetivo “kulinarische”, culinário, indica pejorativamente aquilo que é para ser consumido rapidamente, em um gozo sem esforços. Embora valha para toda a língua, o termo esteve bastante em voga no início do século XX na crítica e teoria de arte. Adorno coloca em seus textos musicais a “música culinária” como algo ruim, de prazer rápido e sem reflexão, talvez na esteira da escuta estruturada de Hanslick, que dizia que a música era para ser contemplada atentamente, não degustada como um vinho. Em contraponto, Benjamin via na “ópera culinária” de Brecht uma nova possibilidade de experiência, já que o prazer de degustar algo bom ao paladar poderia também trazer a crítica à tona. Este trabalho tentará delinear então como o termo “culinário” aparece na obra desses autores e também tecer relações entre a escuta e o paladar a partir deles.

O rock and roll carioca nos anos 50

Marcelo Garson

O objetivo deste artigo é iluminar alguns aspectos da gênese do rock and roll no Brasil. Analisando o curto período localizado entre 1955 e 1960, busca-se contestar a ideia de que, nessa época, o rock era praticamente inexistente enquanto pratica social, composto sobremedida por iniciativas esparsas de intérpretes já consagrados. Uma extensa análise dos jornais e revistas da época deixa claro que rock and roll era reconhecido como uma dança e não como um gênero musical. É justamente essa natureza que nos interessa analisar, o que nos leva à descoberta de um circuito de praticas sociais extremamente movimentado nos subúrbios cariocas. Nesses locais, os dançarinos disputavam concursos onde a superioridade técnica de suas acrobacias estava em jogo. Organizados a partir da lógica dos shows de variedades, esses eventos contavam com atrações das mais diversas, revelando, em grande medida, como a atmosfera do espetáculo é importante para compreender o papel social da música nessa época.

O samba e a cerveja como símbolos nacionais: eu sou Brahmeiro

Antonio Layton Souza Maia

O presente artigo, partindo de uma propaganda da cerveja Brahma, busca entender como a cerveja e o samba tornaram-se elementos da identidade nacional brasileira. A partir de uma visão sócio-histórica, embasada pelas considerações de Schneider sobre a “brasilidade”, discute as principais características do imaginário nacional brasileiro, para, então apoiado pelos levantamentos de dados históricos de Vianna, Diniz e Coutinho, encontrar os principais elementos que elevaram tanto a cerveja quanto o samba ao patamar de símbolos nacionais.

Bebida, canto e alma — os índios Ticuna e a imortalidade

Edson Tosta Matarezio Filho

Minha comunicação se baseia em minha pesquisa de doutorado sobre os Ticuna – índios de língua isolada localizados na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru – o mais numeroso grupo indígena do Brasil. Entre estes índios, a moça que menstruou pela primeira vez fica reclusa até que seja aprontada sua festa de iniciação, a chamada Festa da Moça Nova. A menina ficará reclusa em um quarto feito de talos de palmeira buriti, anexo à casa de festas. Atrás deste local de reclusão, no recinto dos trompetes, ficam os instrumentos sagrados, que tocarão durante o ritual, aconselhando a “moça nova”. Ao longo de minha comunicação pretendo apresentar o principal motivo para os Ticuna fazerem a Festa da Moça Nova: alcançar a imortalidade. Durante estes rituais, espera-se que os imortais/encantados (üünne) visitem a festa para levar as pessoas que estão celebrando este rito de passagem feminino. Segundo um de meus informantes, “quando todo mundo está de porre a casa sobe [para a terra dos imortais]. Antigamente, aparecia um imortal para muitas moças e levava elas. Os encantados levavam todo mundo que estava na festa com ela”.

Festa do Divino Espírito Santo: música e devoção no sertão baiano

Thiago Marcelo Mendes

Nossa proposta aborda a Festa do Divino Espírito Santo em Brotas de Macaúbas, sertão da Bahia. Ela dura 50 dias, intervalo entre o domingo de Páscoa e o de Pentecostes. Percorre inúmeras comunidades do município, movimentando-se em 2370 km2 entre caatingas e cerrados. O principal símbolo da festa é a Bandeira do Divino. Por sua vez, os tocadores são os responsáveis pelas cantorias da Bandeira, sendo elas religiosas (Ladainha do Divino) e festivas (forró e ritmos regionais). Essas manifestações musicais acessam a memória afetiva do grupo, seja através da devoção ou através da diversão. Neste sentido, devoção e festa constituem um modo e um ethos de vida peculiares da população das comunidades brotenses. O ritual se complementa, na medida em que os moradores oferecem alimentos e bebidas aos acompanhantes da bandeira e tocadores, celebrando uma fartura gastronômica, bem como a renovação dos laços sociais e afetivos. Assim, a Bandeira do Divino reúne festa e devoção num mesmo espaço de bens e trocas simbólicas, onde a música desempenha papel fundamental, sendo o fio condutor destas manifestações e performances.

A música da mídia na mente: uma análise da recepção dos jingles e uma reflexão sobre o gosto musical contemporâneo

Ana Lúcia Iara Gaborim Moreira
Antonio Deusany de Carvalho Júnior

Este artigo apresenta os resultados da segunda parte de uma pesquisa iniciada em 2012, acerca da presença da mídia na paisagem sonora – conceito estabelecido por Murray Schafer (2011). Segundo o autor, a paisagem sonora muda com o tempo, mas deixa algumas impressões que se perpetuam, no pensamento das pessoas, independentemente de período ou local. Da mesma maneira, percebemos na paisagem sonora brasileira a presença de jingles que permanecem na mente das pessoas mesmo com o passar dos anos, e fazem parte não só do repertório musical do rádio e da televisão, mas da linguagem cotidiana, na reprodução de frases e expressões que divulgam ainda mais a mensagem comercial e trazem à tona a lembrança da mídia. Assim, a pesquisa realizada neste ano, além de abordar a recepção das “canções da mídia” (VALENTE, 2004) em análise comparativa dos anos de 2012 e 2013, buscou ampliar as investigações no campo dessas músicas compostas especialmente para fins de divulgação de um produto, ou seja, os jingles - que se fixam na memória, mais do que as imagens a eles associadas (BAITELLO JR., 1997). A pesquisa também aprofundou as reflexões acerca do gosto musical, que é algo individual e nos revela muito sobre aspectos psicológicos do ouvinte-receptor. Partimos do uso de novas tecnologias, como questionários online, enviados através de redes sociais e e-mails com várias perguntas conceituais e pessoais. Com a análise destas respostas, chegamos a conclusões semelhantes às expostas por Schaffer em todas as suas análises, enfatizando a realidade brasileira e considerando que muitas pessoas se alimentam da música da mídia às vezes sem total percepção.

Para comer e para levar, para cantar e para bailar: Estudo da música salsa como patrimônio imaterial musical da diáspora afro-latino-caribenha

Julio Moracen Naranjo

O trabalho trata do estudo da música salsa no Caribe e no Brasil, enquanto acontecimento espetacular-musical patrimonial que se desenvolve em espaços culturais da diáspora atlântica. A salsa como movimento musical e cultural ganha amplitude face à Globalização, por conter um estilo performático e musical que interfere nas culturas brasileiras e caribenhas por suas narrativas sonoras transnacionais e interculturais. Analisando-a no sentido de potencializar “abordagens cosmopolitas”, pensamos poder contribuir com questões para alargar, teórica e analiticamente, discussões sobre as mediações entre música + comida + bebida, em um enfoque de diálogo local/ regional e transregional, onde a salsa, e patrimônio imaterial espetacular-musical transculturado, na perspectiva de Fernando Ortiz em seu livro “Contrapunteo Cubano del Tabaco y del Azucar”. A pesquisa e apresentada a partir da analise de artistas, dançarinos e bailadores, espaços culturais e mestres (tesouros humanos vivos), trazendo ao primeiro plano diálogos antropológicos e uma história das interrelações culturais no espaço conhecido como afro-latino-caribenho a partir do Caribe e do Brasil

Rock com sabor de Mupy: o gosto da música na cena cosplay

Mônica Rebecca Ferrari Nunes
Vera da Cunha Pasqualin

Este trabalho integra o projeto de pesquisa Comunicação, Consumo e Memória: Cosplay e Culturas Juvenis (CNPq) em desenvolvimento junto ao PPGCOM- ESPM. Analisa a cena cosplay em eventos da cidade de São Paulo nas dimensões do espaço aúdio-tátil proposto por McLuhan e das paisagens sonoras, propostas por Murray Schafer. A pele convoca os sentidos a se misturarem, como avalia Michel Serres, e, na cena, sons de rádios webs, de bandas de anime songs, de espadas medievais, de vocaloides, de trilhas de animês e de HQs misturam-se à pele de jovens por sua vez imiscuídas às materialidades que reinventam narrativas midiáticas mediatizadas também pelo gosto de alimentos glocais: sucos mupy, yakisobas, coca-colas e cachorros-quentes.

Indústria da cultura e indústria de alimentos: causa ou consequência da homogeneização e degeneração dos gostos na sociedade de massas?

Juliano de Oliveira
Ronaldo Novaes

É bastante conhecida a crítica dos frankfurtianos, notadamente Theodore Adorno e Max Horkheimer, de que a música vinculada à Indústria da Cultura, com suas estruturas formais altamente previsíveis e repetitivas, melodias fáceis e padrões familiares, teria sido responsável por certa infantilização da audição e poderia haver contribuído, igualmente, para a “regressão da escuta”. Também é bastante comum nos tempos atuais a crítica, por parte de sociólogos, nutricionistas e profissionais da área da alimentação, à indústria dos alimentos por haver ocasionado uma homogeneização dos gostos e contribuído para a criação de paladares infantilizados, que, neste caso, se caracterizaria pela predileção por sabores adocicados e pela aversão a verduras, frutas, alimentos desconhecidos e temperos fortes. Nesse artigo buscar-se-á, portanto, estabelecer possíveis relações entre as críticas auferidas às indústrias da música de consumo e de “fast” e “ junk food” tendo por base as seguintes questões: haveria, de fato, a cultura de massas (ou para as massas) ocasionado uma homogeneização e infantilização de todos os gostos? Até que ponto é possível relacionar uma experiência estética com uma experiência alimentar? Não seria, em certa medida, a apreciação gustativa também uma experiência estética em algum sentido? Até que ponto podemos conceituar como “infantilizada” uma cultura pautada nos gostos de uma sociedade de massa construída sob a égide do consumo?

O Yoga no ocidente: sonoridade, alimentação e ritual

Julicristie M. Oliveira

Yoga é um substantivo masculino de origem sânscrita que significa união e trata da junção do ser individual, fenomênico com o absoluto, atemporal. Segundo Patanjali, responsável pela primeira sistematização sobre o tema, Yoga é a supressão dos movimentos da consciência. A prática do Yoga no ocidente é tão plural quanto instigante, diferentes linhas são revisitadas e ressignificadas. As ásanas, ou posturas, são as características mais marcantes e facilmente associadas à prática corporal. Outras nuances, entretanto, são muitas vezes recorrentes: a sonoridade e a alimentação. Músicas instrumentais, mantras, sons da natureza e outros elementos criam uma atmosfera interiorizadora, um convite para se reduzir as oscilações da mente, do (s)om ao silêncio. O Mantra é uma fórmula invocatória e sua repetição uma prática meditativa. O som de om, ou aúm, sílaba mística, é uma ponte sonora que transcende o fenomênico rumo ao atemporal. Ascese, alimentação vegetariana e outras discussões sobre dietética criam uma atmosfera reflexiva, um convite para se pensar sobre o que se come, das questões éticas à saúde. Ademais, em tempos de lightização da existência, dos corpos e do comer, elaboram-se outras questões a serem ou não respondidas. E temos que considerar que o Yoga no ocidente também tem seu ritual: não há uma boa sessão que não se inicie com um chá quente na sala de espera, com uma musak ao fundo; transcorra com suas ásanas, pranayamas, mudras, bandhas e kriyas, ao som de uma cítara; e não termine com os yogins sentandos em padmasana, pronunciando repetidamente o om.

Educação musical e indústria cultural

Marcelo Fernandes Pereira

Há uma grande cisão em termos de paradigma científico e referencial bibliográfico extra-musical entre as produções em educação musical dos anos 70, 80 e início dos anos 90 do século passado e as publicações ocorridas a partir da virada do século XXI. Por isso, este artigo – que faz parte de uma pesquisa em andamento – pretende justapor dois diferentes posicionamentos a respeito da cultura musical legada pela mídia aos alunos do ensino regular: o primeiro posicionamento decorre de um referencial moderno, que vê a mídia a partir do processo de regressão da audição formulado por Theodor Adorno e enxerga a educação musical como uma espécie de contraponto a esse processo; e o segundo, decorrente de teorias multiculturalistas – sobretudo inspiradas nas ideias de Garcia Canclini – que vê com otimismo as mudanças oferecidas pela mídia, não as considerando como regressões, mas como hibridismos que resultam, não em perdas, mas em transformações na sensibilidade musical contemporânea. Nosso objetivo é desnudar os limites epistemológicos de aplicação de cada posicionamento e as propostas em educação musical que deles decorrem, sem, no entanto buscar quaisquer tipos de sínteses. Nossa metodologia é eminentemente bibliográfica e tem como referencial teórico, além dos sociólogos acima citados e de estudiosos de ambas as teorias, as publicações de Maura Penna, Nilceia Campos e Jusamara Souza, entre outras ligadas à área de educação musical.

O exótico no Banquete de Mário de Andrade – discussão sobre a negritude e o projeto de recepção da música erudita nacional

Theophilo Augusto Pinto

Mário de Andrade, em 1943, imaginou um banquete onde um grupo de comensais discute questões ligadas à música de sua época. Um compositor erudito, uma cantora lírica, um estudante de direito, um político e a rica anfitriã são usados pelo autor para tipificar a recepção da música nacional pelo público estrangeiro que, segundo o autor, está interessado no “vatapá” musical brasileiro, isto é, no exótico.

Dá meu Danoninho pra eu virar herói: encantamento e persuasão no jingle

Danuza Pessoa Polistchuk

Este artigo, que permeia as disciplinas propaganda, música e filosofia, objetiva encontrar uma possível relação entre a simbologia do herói e o jingle Me Dá Danoninho, do fabricante de iogurtes Danone, por meio da análise da letra e do texto musical, e observar se esse simbolismo caracteriza finalidades de encantamento e/ou persuasão. Para atingir esses objetivos, a análise será feita sob a luz da semiótica da cultura, justamente por tratar-se de simbolismo e significação. A análise da letra e do texto musical não se limitará aos aspectos explícitos apresentados no jingle, mas também àqueles que ofereçam a possibilidade de relacioná-los ao simbolismo do herói. A relevância deste artigo está na possibilidade de se encontrar na propaganda cantada aspectos simbólicos do herói, comumente usados na propaganda impressa, e apontar se essa simbologia é usada como persuasão, com intenção clara de convencimento, ou também como encantamento, contribuindo para a sedução.

Os 10 anos do Musimid na pesquisa musical: depoimento de Teresinha Prada

Teresinha Prada

“O mundo não para de girar” — a juventude roqueira dos anos de 1980 e suas relações com as bebidas alcoólicas

Gustavo dos Santos Prado

Uma grande parcela das composições de rock nacional da década de 1980, trazem em seu bojo uma trama cultural complexa, resultado das aspirações que vários jovens artistas tiveram e que foram experienciadas em um dado cotidiano urbano. Assim, é comum as músicas abordarem temáticas que polarizavam a atenção dos jovens, tais como relacionamentos, festas, relações familiares, dentre várias. Diante desse universo de temáticas, que já foram relativamente exploradas na esfera acadêmica, a comunicação em questão, visa abordar as formas que, uma parcela do movimento roqueiro da década de 1980, representaram em suas composições, as suas relações com as bebidas alcoólicas. O resultado desse envolvimento permite que problematizemos a relação do jovem consigo mesmo, bem como com seu cotidiano vivido. Para tanto, foram trazidas para análise cinco canções, de grupos e artistas diversos, que fizeram parte do movimento musical em questão.

Hardcore, sobriedade e direitos dos animais: reflexões sobre as relações entre produção musical, veganismo e abstinência na subcultura straightedge

Jhessica Reia

Esse trabalho tem como objetivo apresentar uma reflexão sobre as relações existentes entre a produção musical straightedge, a (não) ingestão de álcool e drogas e a alimentação vegana, que acaba permeando todos os festivais chamados de Verdurada e a cena de hardcore punk que os cerca. Straightedge é um movimento que teve início nos anos 1980, dissidente da cena punk, que buscava um estilo de vida livre de álcool e drogas, por vezes associado também ao veganismo, à militância política e ao sexo responsável. A pesquisa a ser apresentada tem como referencial teórico os estudos culturais e a intersecção dos estudos de música e/como comunicação. A base para a constituição desse trabalho é minha pesquisa de mestrado, realizada entre 2011 e 2013; por isso, se apropria de alguns métodos utilizados para construir a reflexão aqui proposta. Diante de tantas questões a serem sistematizadas e analisadas, optou-se por realizar a pesquisa em duas partes distintas e complementares: uma de caráter teórico, bibliográfico e documental; e outra caracterizada por um estudo empírico realizado através de observação participante, da aplicação de questionários presenciais (durante os festivais) e online (para membros da página da Verdurada no Facebook), de entrevistas qualitativas com atores-chave (bandas, selos, coletivo organizador, frequentadores, etc.), e de netnografia complementar. A partir de todo material coletado pode-se analisar melhor o papel que a comida e a ausência da bebida (principalmente do álcool) exercem na produção musical straightedge e na comunidade como um todo, adquirindo um caráter quase ritualístico de interação pessoal, ao mesmo tempo em que é e um sinal de distinção e pertencimento ao grupo.

O Festival do Folclore de Olímpia, o Grupo Sabor Marajoara e o Culto da Jurema: “invenções” sucessivas e complementares

Estêvão Amaro dos Reis

O Festival do Folclore de Olímpia – São Paulo (FEFOL) completou no ano de 2013 quarenta e nove edições ininterruptas e reúne manifestaçoes folclóricas de todas as regiões brasileiras. Entre os grupos participantes encontra-se o Grupo Sabor Marajoara da cidade de Belém (Pará), cuja fundação tem relação direta com o FEFOL. No presente trabalho, analisaremos como os integrantes do Sabor Marajoara aproximaram-se da tradição do Culto da Jurema – onde a bebida de mesmo nome (jurema) desempenha papel essencial no Culto – e utilizaram esta tradição como argumento e justificativa para sustentar sua relação com as manifestações folclóricas ou tradicionais que levam ao palco, estreitando as fronteiras entre esta tradição religiosa e o universo do espetáculo no qual o grupo transita. Para tal, utilizaremos o conceito de “tradição inventada” discutido por Hobsbawm (1997) e os estudos sobre o mito desenvolvidos por Canclini (2010) e Eliade (1991).

Saraus, récitas líricas, bailes e concertos ituanos: as sinhazinhas, e seus dons musicais, embebidos em gengibirra e quitutes

Marcos Júlio Sergl

As reuniões familiares com intuito artístico ganham força no Brasil no século XIX, sobretudo, para apresentar os dotes musicais das moças. As práticas musicais socialmente aceitáveis realizadas pelas sinhazinhas estão ligadas ao espaço doméstico, por meio dos saraus, concertos, récitas líricas e bailes. O preparo para esses eventos muda a rotina da localidade. A decoração esmerada é composta por arcos de folhas e festões sobre as portas e janelas, grandes vasos com buquês de flores e arbustos, no exterior e no interior dos edifícios. Os doces e licores especiais são parte essencial dessas festas. E a localidade conta nessa época com Maria Custódia, que ajudada por duas escravas, arma mesas de doces, que parecem obra técnica de engenharia. A ópera italiana tem aceitação plena e constitui a base do repertório musical. As companhias italianas e nacionais, que apresentam suas mais recentes criações, ditam a moda e o comportamento da sociedade local. E os jornais dedicam páginas inteiras à descrição dessas festas, às quais todos comparecem. A partir da divulgação de eventos por parte da imprensa ituana, destacamos uma grande quantidade de bailes, saraus, peças e concertos na localidade. Festas escolares de término do período letivo, atos governamentais, solenidades religiosas e cívicas, aniversários, tudo é motivo para festejo. Assim, a monotonia da cidade provinciana é quebrada. Nesta pesquisa iremos analisar esses eventos de lazer cultural e social que destacam Itu no cenário da Província de São Paulo.

Bebendo o blues: a bebida e o cigarro na obra de Celso Blues Boy

Paulo Celso da Silva

O trabalho analisa a obra do músico carioca Celso Ricardo Furtado de Carvalho (1957- 2012) que escolheu para seu nome artístico o Blues Boy, em homenagem a seu ídolo da adolescência, Blues Boy King, ou simplesmente, B.B. King. Iniciou sua carreira acompanhando músicos brasileiros e, a partir dos anos 1980, desenvolveu sua carreira solo com 11 discos lançados, sendo que o título do último disco, de 2012 foi, Por um monte de Cerveja . O texto analisa a recorrência do tema bebida – Blues – cigarro, na obra de Celso Blues Boy, utilizando a metodologia de palavras-tema e palavras-chave, considerando que as primeiras são utilizadas pelo autor, mas de uso geral e, as segundas, caracterizam o poeta-músico. Isso possibilita compreender as particularidades desse estilo musical no Brasil, o fazer Blues no Brasil. O trabalho também mostra que a correspondência entre o Blues- Bebida-cigarro, nem sempre feliz, marcou, além do estilo e a temática, a vida do músico.

A música como expressão gastronômica: o baião de Luiz Gonzaga

Moacir Ribeiro Barreto Sobral
Sênia Regina Bastos

O cantor e compositor Luiz Gonzaga do Nascimento, considerado o Rei do Baião, divulgou pelo Brasil os forrós pé-de-serra, o xote, o xaxado e outros estilos musicais, cujas letras evidenciavam a pobreza, as dores e as injustiças presentes na sua região natal, ecoando as tristezas e os amores de um povo que ainda não tinha voz. A presente pesquisa, de natureza qualitativa, objetiva identificar e analisar as letras das músicas cantadas por Luiz Gonzaga que apresentam elementos relativos à comensalidade, sociabilidade e aspectos da alimentação nordestina, todos diretamente associados às práticas da hospitalidade. A pesquisa tem como objetivo principal a alimentação e os sabores do nordeste que sempre estiveram presente na vida de Gonzaga. Fundamenta-se na análise de conteúdo dos estudos biográficos do cantor, na seleção e análise das letras das músicas a partir das categorias alimentação, comensalidade e sociabilidade.